artigos


A Acusação

A Acusação

Um Caso de Abuso Sexual

Após a meditação que sempre fazemos antes da Constelação Familiar, no meu grupo de terça-feira, resolvi ler um texto de um livro novo do Bert Hellinger – Pensamentos Sobre Deus - que levara para mostrar ao grupo.

Abri o livro aleatoriamente na página com um texto intitulado ‘A Lamentação’ e comecei a lê-lo: “A lamentação se recorda de algo anterior e lastima por isso. Na lamentação – e ainda mais na acusação – desejamos que algo tivesse sido diferente, que poderia ter sido diferente do que foi. Através da lamentação e da acusação rejeitamos algo. Rejeitamos uma realidade.”
Após ler todo o texto e apresentar o livro ao grupo, comecei a constelação que estava agendada, de uma ex-cliente. Perguntei-lhe qual era a sua questão. Ela respondeu prontamente que era uma questão de abuso sexual. Quando ela quis comentar alguns casos de abuso na família, eu a interrompi imediatamente. Pedi, então, que ela colocasse duas pessoas: uma para representá-la e outra para representar o abusador. Eu mesmo os coloquei um de frente ao outro.
A representante da mulher olhava para baixo e se disse completamente paralisada. O homem olhava para ela e tinha vontade de se aproximar. Pedi que ele seguisse o impulso e ele deu alguns passos para o lado rondando a mulher e sempre olhando para ela. A mulher agora se movimentava fugindo do homem. Ele a seguia com cautela e interesse.
Coloquei então os pais da mulher. Ela imediatamente se protegeu no seu pai. A mãe olhava um pouco assustada e se dizia atraída pelo abusador. E este, por sua vez, continuava atraído pela filha.
Coloquei a mãe do abusador. E pedi que o mesmo olhasse para ela. Ele se sentiu uma criança carente e reclamava por não ter recebido o amor da mãe. Acusava a mãe de ter negligenciado a família. Pedi então que ele olhasse para o seu sistema familiar como um todo. Mostrei que ali atrás da mãe estavam todos os seus descendentes e todos tinham um destino especial. E também todos tinham feito algo para que ele estivesse ali naquele momento.
Pedi que ele se curvasse diante do destino de todos, concordando e acatando tudo aquilo que aconteceu. Ele se curvou até o chão e quando se levantou seus olhos estavam em lágrimas. Agora ele via que sua mãe era apenas parte daquele mar de acontecimentos e pela primeira vez conseguiu olhar para a mesma com amor. O movimento seguinte foi um profundo abraço na mãe que o tomou nos braços e pôde compartilhar pela primeira vez o seu amor.
Nesse momento me veio à lembrança o texto que eu lera no início e que continuava dizendo: “É totalmente diferente quando concordamos com a realidade como foi. Quando concordamos com essa realidade, ela se torna significativa e grande. Essa concordância atua como uma bênção, fazendo com que a nossa realidade floresça. Através de nossa concordância, a realidade transforma-se numa força vital que carrega frutos no seu devido tempo e nos reconcilia com ela. Através de nossa concordância, a realidade torna-se preciosa e valiosa para nós.
Inversamente, a lamentação e especialmente a acusação atuam como uma maldição. Ela nos paralisa e deixa algo murchar dentro de nós – principalmente o amor. Na lamentação e na acusação algo morre antes que possa amadurecer. Dessa forma, a lamentação e a acusação comprovam ser inimigas da realidade. Também são inimigas de outros seres humanos, são inimigas da vida tal como ela é, e também são inimigas de Deus. A acusação e a lamentação separam onde o amor vincula. Na acusação e na lamentação o amor definha.”
Essa era a chave para a solução daquela Constelação Familiar.
Quando o homem olhou novamente para a filha e seus pais, o seu olhar estava transformado. Nesse momento revelei o que estava oculto para todos. O abusador era avô da criança abusada. Ele olhou para sua neta com lagrimas nos olhos e disse: “Eu sinto muito!” A criança que tinha estado assustada e temerosa durante toda a constelação pode agora olhar para o avô e se sentir calma. Os pais estavam tocados, mas serenos.
Quando a família se juntou em um próximo movimento, pedi que a filha/neta olhasse um a um e dissesse: “Eu deixo tudo isso com vocês! Agora eu olho para a minha vida com amor!” Todos fizeram uma pequena reverência e assumiram a sua responsabilidade.
Finalizei a constelação nesse momento.
O que aconteceu nessa Constelação?
Bert Hellinger na continuidade do seu texto explica: “Quando concordamos com uma realidade sem reclamar e sem acusar ninguém, essa realidade pode mudar e nós teremos influência sobre ela porque concordamos com ela. Entretanto, a força para influenciá-la não vem de nós. Vem da realidade com a qual concordamos.”
Nota de esclarecimento: Concordar com a realidade, neste caso acima, não significa concordar com o ato do abuso. Na verdade, por não concordarmos com a realidade, é que o ato do abuso acontece. O abuso, neste exemplo, é um subproduto da acusação.


Namastê!

Guilherme Ashara


envie-nos também o seu comentário