A Ordem Sagrada
Caso de Constelação Familiar
No Caso terapêutico a seguir Guilherme Ashara nos dá um exemplo de como transformar uma ‘desordem’ no sistema familiar em ‘ordem’. Para isso ele se utiliza da compreensão da ‘Ordem Sagrada’ revelada por Bert Hellinger que mostra que cada pessoa da família tem um lugar específico no seu sistema familiar e que os excluídos e os mortos precisam ser reconhecidos e honrados.
Norma marcou uma sessão individual após ter assistido a uma palestra minha sobre constelações familiares. Logo no início da sessão ela se incomodou com a janela com venezianas que dava para um corredor por onde passaram conversando algumas pessoas. A sala pertencia a um espaço em uma cidade na qual eu havia ido fazer atendimentos e dar um workshop. Eu achei pertinente a reclamação dela e fechei as venezianas, porém a forma que ela reclamou me chamou atenção. Além do que, ela foi a única pessoa que reclamou após diversas sessões que dei nessa mesma sala.
Coloquei minha percepção para a mesma e chamei sua atenção ao que me pareceu que ela queria ser muito especial e importante. Norma nesse primeiro movimento já mostrava algo que se revelaria mais tarde em sua constelação.
Quando perguntada sobre a questão que a trazia para a consulta, Norma colocou alguns problemas que estava vivendo. Ela morava com seu namorado há seis anos, mas não sentia muita conexão com o mesmo. Achava que havia ficado com ele por carência. Ela havia saído a alguns anos da casa dos pais porque, segundo ela, a mãe a pressionou a assumir um emprego concursado no interior do estado.
Pedi que Norma colocasse três almofadas: uma para representar seu pai, uma para sua mãe e outra para si mesma. Na colocação Norma se posicionou entre os pais. Tanto o pai quanto Norma olhavam para a mesma direção, para fora do sistema. A mãe parecia distante.
A imagem de princípio já denotava várias desordens: a posição da filha, a cliente, colocada entre os pais; o olhar do pai buscando alguém fora do sistema; o olhar da filha mostrando sua fidelidade ao pai; e a mãe deslocada da família.
Na entrevista inicial Norma havia dito que seu pai perdera o próprio pai quando tinha dezessete anos. Podíamos então ver com clareza para onde pairava o olhar do pai: em busca do seu próprio pai. No fundo de sua alma podíamos ver a expressão: “Eu sigo você, pai”. E Norma por sua vez, acompanhando a mensagem do pai, dizia: “Antes eu do que você, pai”.
Por outro lado, sua mãe havia perdido um irmão que nasceu morto. A mãe também havia abortado o segundo filho de forma natural. Essa duas perdas geraram uma tremenda dor na alma da mãe que também não conseguia olhar para a filha e para os demais três filhos vivos.
O primeiro movimento que sugeri for retirar a filha do meio dos pais de forma que ela pudesse ver de longe os movimentos da alma familiar que estavam prestes a acontecer. Norma carregava parte do destino do pai e parte da dor da mãe. Os filhos sempre acham que suprimindo as dores e o destino dos pais eles estarão salvando os próprios pais. Porém o que acontece na realidade é que a carga se duplica. O que antes só era carregado pelos pais, agora também é levado pelos filhos.
Colocamos o irmão natimorto da mãe e pedimos que ela olhasse para o mesmo. Depois de conectar com a dor, pedi a mãe que reverenciasse o destino do irmão e deixasse com seus pais a dor e a responsabilidade sobre o que aconteceu. Esse foi o passo inicial para a cura através do reconhecimento da ‘ordem sagrada’ sistêmica que subtende que cada pessoa deve tomar para si o seu lugar, o seu destino, suas culpas e responsabilidades.
Então colocamos também o avô paterno da cliente em frente a seu filho, pai da cliente, na mesma direção que olhava o pai. Agora o pai da cliente pôde olhar para seu próprio pai e reconhecer a tremenda dor que foi perdê-lo na adolescência. Ele disse a seu pai: “Querido pai, eu ainda sinto muita saudade de você, você foi muito cedo e eu sinto a sua falta”. Enquanto seu pai pôde declarar: “Querido filho, minha morte não teve nada a ver com você. Foi parte do meu destino e eu quero que você deixe tudo o que aconteceu comigo”. O filho agradeceu, dizendo: “Obrigado papai, pela vida que o senhor me deu. Eu a recebo com tudo mais que ela me trouxe”. Pai e filho se abraçam e se reconciliam.
Observem que como trabalhamos com almofadas nos atendimentos individuais, muito das cenas acontecem em um campo sutil de consciência, um campo mórfico, utilizando também a visualização criativa. As cenas parecem tão reais que a filha que observava do seu lugar, precisou várias vezes de lenço de papel para limpar as lágrimas e em alguns momentos necessitou do apoio do facilitador.
Diante dessas cenas, a filha agora está pronta para deixar para trás aquilo que carregava pelos pais, dizendo aos mesmos: “Querida mãe, agora deixo com você a sua dor e o destino do seu irmão. Sou somente a filha e você é a mãe. Sou a pequena e você é a grande”. Ela então se curva profundamente com as palmas para cima, deixando com a mãe e seus antecessores tudo aquilo que não lhe pertencia, bem como assumindo o seu lugar de filha na família.
Em seguida ela se vira para o pai e diz: “Querido pai, eu estava em um lugar que não me pertencia. Tudo que aconteceu na história de vocês e entre você e minha mãe que eu tomei para mim, agora eu devolvo a vocês. Eu assumo o meu lugar de filha e sigo a minha vida com a sua benção.”
O alívio de Norma após honrar e reverenciar os pais ficou visível. E pedi que ela expressasse em poucas palavras, dando um tempo que ela absorvesse esse sentimento.
Ficou claro desde o início porque Norma parecia especial. Ela carregava um fardo pesado da família e como filha mais velha, era dela a última palavra nas decisões de casa. Porém carregando essa carga de sua família de origem, Norma não podia olhar para sua própria vida. Seus relacionamentos estavam fadados a fracassar, como ela mesma declarou no início da sessão. Ela não conseguia também satisfação em seus empregos. Tanto era assim que continuava pulando de um emprego para outro.
Coloquei então seu namorado. Norma olhou para ele e sentiu que pela primeira vez pode conectar verdadeiramente com o mesmo. Ela colocou: “Meu querido companheiro, essa desconexão e descompromisso que tenho com relação a você, não tem nada a ver com você. Agora vejo que é parte de um fardo que eu carregava. Agora eu olho para você e sinto que me aproximo de você no meu tempo.” O namorado olhou para a mesma de forma muito amorosa, se sentindo muito feliz com o que ouvira.
Demos por encerrada a constelação.
O alemão Svagito R. Liebermeister comenta sobre uma dinâmica semelhante em seu livro “The Roots of Love” (As Raízes do Amor): “[...] Então, a posição que uma pessoa toma em uma constelação pode mostrar tanto ‘ordem’ quanto ‘desordem’. Quando, por exemplo, uma filha é colocada próxima ao pai e a mãe é colocada depois dela, sinaliza que a filha se sente muito importante. Devido a algum desequilíbrio no sistema familiar, ela está ocupando a posição da mãe. Consequentemente, ela olhará para seu pai como se ela fosse seu parceiro, desmerecendo a sua própria mãe.”
Restabelecida a ‘Ordem Sagrada’ que nos mostra o lugar específico de cada membro da família, Norma pôde assumir sua posição de filha, deixar a posição de pais para os mesmos e, por conseguinte, assumir a sua vida amorosa e profissional com totalidade.
Namastê!
Guilherme Ashara
