Guilherme Ashara
Por que a maioria das pessoas evita ou teme a raiva? O que ela é verdadeiramente? Temos que rejeitá-la ou aceitá-la? Será que é possível transformar conscientemente essa emoção?
Vamos tentar elucidar cada uma dessas questões sobre a raiva colocando nossa própria experiência no trato com a mesma.
Acumulei raiva por quase toda minha vida. Até um dia que aprendi que ela poderia ser liberada. Nossa, foi a verdadeira revolução. Uma libertação saber que eu não era mais escravo dela. Ter ou não ter raiva, passou a ser uma escolha minha.
Então, comecei a brincar com ela. Até mesmo aprendi a transformar a tristeza, que é um sentimento passivo, em raiva que é uma emoção ativa. E a raiva me abriu as portas para sentir o ódio. Arrisco dizer que a raiva abriu as portas da minha vida e da minha felicidade.
Por que permanecer com algo infrutífero como a tristeza, tendo a opção de ter algo pulsante e vívido como o ódio.
A tristeza castra, enquanto o ódio movimenta. A tristeza paralisa, enquanto o ódio flui.
Quando pela primeira vez comecei a brincar com a raiva, senti um tremendo prazer. Eu chegava a gostar de sentir raiva! Algo borbulhava dentro de mim e eu sentia que algo vivo e excitante emergia das minha entranhas.
A energia da raiva está muito ligada ao terceiro chakra – o chakra do poder. O terceiro chakra está ligado diretamente ao quarto – o coração. Temos que abrir o chakra do poder para que nossa energia penetre no coração.
Minha busca me levou a grupo terapêutico chamado “Encounter” (Encontro). A estrutura do grupo era simples: mais ou menos trinta pessoas sentavam-se em forma de círculo, em almofadas no chão e a terapeuta dizia: “o espaço está aberto!”. Significava que tudo podia acontecer, menos se machucar ou machucar alguém.
Por cinco dias inteiros ficávamos nesse círculo acusando o outro, sendo acusado, expressando que não gostava daquela pessoa, declarando amor a alguém e tudo o mais que se possa imaginar que aconteça num grupo de pessoas com total liberdade para se expressar. Mas, ao contrário do que se possa imaginar, nunca ficava bagunçado, pois somente um tinha a palavra e o espaço, por vez.
Minha raiva foi aumentando gradualmente. Até que no final do terceiro dia, meu corpo fumaçava de ódio. Nunca havia sentido algo semelhante. Todas as minhas células ferviam de ira e ódio. Minha respiração parecia mais a de um touro brabo na arena.
A minha força era tão grande que eu desafiei o grupo inteiro. E o grupo me respeitou. Então, entendi quanta força existe no ódio e também entendi que esse tremendo potencial pode ser usado para o bem ou para o mal. Essa é uma escolha nossa.
Compreendi também que o grande mal não é a raiva em si, é dizer “não” a ela. Reprimindo-a, você estoca veneno no seu sistema. Você acumula cânceres emocionais que em algum momento da sua vida se transformarão em cânceres físicos.
A raiva bioenergeticamente é uma emoção totalmente positiva. Quando você é obrigado a fazer o que não gosta. Você diz “não”. Se existe uma pressão maior, por exemplo, dos pais e você é forçado a fazer algo, você traz a energia da raiva de dentro que lhe ajuda a manter o seu não, rejeitando aquele comando. Como a maioria da nossa educação é castradora e covarde, a criança acaba atendendo às imposições dos pais que são poderosos... e engole a raiva.
Lembro de momentos que meus pais literalmente diziam: “engole a raiva, engole o choro!”. O que você acha que acontece psico-emocionalmente com uma criança que recebe um comando desses? Bom, olhe mais profundamente para dentro e você certamente vai descobrir. Todos nós passamos por situações semelhantes. Quando não com os pais, com alguma outra autoridade.
Mas, vamos lhe dar algumas dicas para facilitar a sua auto-pesquisa: o primeiro acontecimento é que a raiva fica aprisionada no nosso sistema bioenergético. E, o pior, vai sendo liberada durante a nossa vida adolescente e adulta através de reações agressivas, violentas e dependendo da situação, até mesmo assassinas. Outra possibilidade é que a raiva pode ficar tão encubada que se torna paralisação – estado de choque. A pessoa perde todo o seu potencial de expressão criativa.
E mais, muitos dos nossos sentimentos de aversão, desgosto, antipatia e inimizade são simplesmente reflexos da raiva que acumulamos durante a nossa infância.
Quando trabalho com pessoas bioenergeticamente peço-as para conectarem a raiva de uma situação, em seguida, peço para que eles a expressem através de algum exercício de Biopulsação – terapia Neo-Reichiana de corpo e bioenergia - por mim indicado. Somente assim ela pode tomar consciência da emoção que reside há muito dentro do seu sistema.
Muitas vezes essa energia chega a estar cristalizada – o que William Reich denominou de couraça muscular do caráter.
Quando mobilizamos conscientemente essa energia, ela, aos poucos, vai afrouxando, se desprendendo das cadeias musculares e do sistema energético, sendo finalmente liberada. A sensação que temos após uma sessão de liberação emocional é a de que descarregamos toneladas de peso do nosso corpo. Sentimos-nos novamente livres, libertos, com uma sensação de leveza no corpo e paz na mente.
O que podemos fazer para nos livrar da raiva?
Bom, primeiramente mudando a pergunta. A pergunta deveria ser: como podemos aceitar a raiva e utilizá-la a nosso favor?
E a resposta é simples: viva-a conscientemente. Respire a raiva, dance a raiva, esmurre almofadas liberando conscientemente essa energia. Em resumo: fique próximo dela, torne-se amigo da mesma.
Somente assim você vai experimentar a mais fantástica das alquimias: a alquimia das emoções. Então, emoções ditas negativas, como mágoa, agressividade e ira podem gradualmente se transformar em sentimentos como força, preenchimento e amor.
Um ‘insight’ do Mestre Espiritual Osho: “A mesma energia que podia ter se tornado uma luta com a raiva é deixada dentro de você. Energia pura é deleite – Estou citando William Blake: “Energia é deleite” - apenas energia, sem qualquer nome, sem qualquer adjetivo… Porém você nunca permite a energia ser pura. Seja ela raiva, ou ódio, ou amor, ou avidez, ou desejo. Ela está sempre envolvida com algo
Namastê!