Início da Página:

Você está na Principal » :: Artigos Zen

- Da Solidão para a Solitude


Menu de Acessibilidade:

Menu de Ferramentas:

Conteúdo da Página:

Da Solidão para a Solitude

Guilherme Ashara

A cada dia que passa temos mais consciência de que nascemos sós, vivemos sós e morreremos sós. Isso é ruim? Isso é triste? Ou isso mostra simplesmente a nossa natureza. Será possível transformar um estado de solidão em uma vida de solitude?


Hoje é domingo de carnaval. Minha mulher foi para uma clínica natural em outro estado. Meu filho foi, com um grupo de amigos, passar o carnaval na praia. E. enquanto milhares de pessoas pulam e dançam por todo o Brasil, eu estou aqui sozinho, aprendendo naturalmente  a transformar solidão em solitude.

Na verdade, esse processo começou há trinta anos atrás, por volta dos meus vinte e três anos quando descobri que existia meditação. Conheci um grupo de pessoas que tinham um restaurante macrobiótico e divulgavam a meditação.

Passei alguns meses variando entre a macrobiótica e a “carnobiótica”. Foi quando meu sistema digestivo rejeitou a carne, então aboli a carne bovina do meu cardápio. Ainda como frango, mas em quantidades muito reduzidas. Aos poucos me afastei de muitos carnívoros enquanto que me aproximava mais dos grupos naturalistas.

Quando comecei a meditar e larguei a minha religião de nascimento - o Catolicismo, novamente o meu grupo de amizade se reduziu. Nesse momento, comecei a perceber que escolhas individuais implicam em perdas. Aos poucos fui me afastando dos princípios e das orientações da minha família, chegando até mesmo a negá-los. Este foi o primeiro grande “insight” de que eu estava só neste mundo.

Bert Hellinger, no seu livro “Religião, Psicoterapia e Aconselhamento Espiritual” explica muito bem essa passagem: “Quando observo como os indivíduos crescem em sua religião, um no Catolicismo, como eu, o outro na Igreja Evangélica ou no Islã, vejo que a religião de cada um faz parte da cultura a que ele pertence, ou é um valor altamente estimado em sua família. Portanto, a religião é algo que se recebe com a família. Por outras palavras, é como uma revelação, à qual a pessoa se submete sem ter uma visão própria. Ela crê em algo que lhe foi transmitido e que ela própria não viu nem decidiu”.

As perdas de amizades e de valorizações exteriores aumentavam, enquanto eu continuava a minha busca interior. E foi nesse movimento que comecei a perceber existencialmente a diferença entre solidão e solitude.

Há pouco tempo atrás tive mais uma outra experiência de perda: Velhos amigos de busca, por alguns motivos, se afastaram do meu convívio, ou eu me afastei do convívio deles. Novamente o sentimento de estar só no mundo chegou e se aprofundou na minha consciência. E novamente um espaço de confiança se abriu dizendo “sim” a mim mesmo.

Por um lado eu chorava perdas, mas por outro eu me satisfazia e me preencia diante do encontro de partes da minha essência. E cada vez que isso acontecia, eu me sentia mais forte. Comecei a perceber que estava trocando o falso pelo verdadeiro, a máscara pela essência, as amizades frívolas e passageiras por algo que é eterno. Esse espaço eu chamo de solitude.

Por mais que neste momento eu viva com mulher e filho, sei que eles estão na minha vida de passagem. Amanhã certamente estaremos vivendo experiências distintas. Mesmo que continuemos juntos até a morte, esta mesma morte nos separará. Mesmo que nos vejamos todos os dias, durante muitas horas do dia estamos sós.

Então, por que perder tempo tentando segurar pessoas e coisas? Viver corajosa e conscientemente a solidão é abrir portas para o que há de mais belo em toda a nossa existência!

Osho nos fala sobre esta transformação da solidão em solitude:

“A pessoa comum insiste em tentar se esquecer de sua solidão, e o meditador começa a ficar mais e mais familiarizado com sua solitude. Ele deixou o mundo, foi para as cavernas, para as montanhas, para a floresta, apenas para ficar só. Ele deseja saber quem ele é. Na multidão é difícil; existem tantas perturbações... E aqueles que conheceram suas solitudes conheceram a maior das bem-aventuranças possíveis aos seres humanos, porque seu verdadeiro ser é bem-aventurado.

Após entrar em sintonia com sua solitude, você pode se relacionar. Então, seu relacionamento trará grandes alegrias a você, porque ele não acontecerá a partir do medo. Ao encontrar sua solitude, você pode criar, pode se envolver em tantas coisas quanto quiser, porque esse envolvimento não será mais fugir de si mesmo. Agora, ele será a sua expressão, será a manifestação de tudo o que é seu potencial.

Porém, o básico é conhecer inteiramente sua solitude.

Assim, lembro a você, não confunda solitude com solidão. A solidão certamente é doentia; a solitude é perfeita saúde. Seu primeiro e mais fundamental passo em direção a encontrar o significado e o sentido da vida é entrar em sua solitude. Ela é seu templo, é onde vive seu Deus, e você não pode encontrar esse templo em nenhum outro lugar.”

Namastê!

 


Imprimir texto Enviar esse texto por e-mail

Comentários

Lista de comentários

Adriana Marchon comentou:

26/11/2009 22:58

Nunca tinha ouvido falar de Osho. Depois de confessar a um amigo que estou me sentindo muito sozinha, ele me recomendou ler esse texto sobre solitude e solidão. Achei interessante. Ainda não me convenci da solitude, mas pelo que entendi é uma forma mais suave de viver a solidão e estar bem consigo mesmo. Bem, vou buscar minha solitude para não sentir tanta solidão. um abraço

drickamarchon@yahoo.com.br

maria edna comentou:

07/02/2010 17:18

vivo em busca de luz e quando encontro algo que me fala desta forma, é como ver um raio desta luz... que deus me permita sempre encontrar luz como esta. muito obrigado!

marednarocha@gmail.com

Lex comentou:

20/07/2010 08:34

Primeiro tenho que dizer que foi muito bom de experimentar que não preciso de traduzir e de conseguir de ler tudo isso no Portugese! Você tem o talento de se expressar clara e simples.
As vezes eu toco esta solitude, mas para mim é tão grande que não consigo de tolerar. Até agora ela sempre vem com a que eu chamo "a solidão divina". O sentido que não exista, só eu. O universo inteiro aparece em mim e depende desta singularidade que sou eu.
Nesses momentos eu me suspeito de criar um mundo cheio de pessoas, só para não sentir isso.
Mas leve: Hoje encontrava este ditado:
Nós nos chamamos todos "eu". Isso significaria, portanto, que somos um eo mesmo.

lex.lissauer@gmail.com

Faça o seu comentário

Para adicionar um comentário, preencha os campos abaixo e clique em "Enviar":

Últimas


Selo de funcionalidades

As notícias deste site são veiculadas através de um canal rss! O que é isso?

Menu de Acessibilidade:

Fim da página