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Consciência de Si

Caso clínico: Abandono e esquizofrenia


Guilherme Ashara

Existem dois tipos de consciência: a consciência mental e a presença consciente. Infelizmente na língua portuguesa temos somente uma palavra. Já em inglês, por exemplo, temos duas: “Conscience” e “Consciousness”.

A primeira palavra significa consciência racional, mental, material, consciência das coisas cotidianas. A segunda palavra significa um estado de presença consciente, um estado de observação ampla e alerta. Nesse segundo significado podemos colocar a “consciência de si”.

Ter consciência de si é o caminho para o autoconhecimento. E autoconhecimento, claro, significa conhecer a si mesmo.

Parece simples, não? Mas, essa talvez seja a tarefa mais difícil que o ser humano pode realizar. Principalmente porque independe da vontade racional. Depende muito mais de um “anseio da alma”. A boa nova é que todos nós nascemos com esse anseio, mas desafortunadamente poucos conseguem acessar esse profundo desejo da alma.

Note que novamente caímos na mesma diferença: desejar com a mente e atingir uma meta é fácil, mas desejar com a alma ou, melhor ainda, deixar que o desejo da alma nos indique o caminho requer uma tremenda coragem.

Caso Clínico: Abandono e esquizofrenia.

Há poucos dias atendi Ana, uma professora de nível médio, de outro estado que me escreveu um e-mail contando várias questões sobre sua vida. Seus maiores problemas eram, como a grande maioria, relacionamentos íntimos e desentendimentos com pai e mãe.

Ela havia sido abandonada pelo pai ainda na gravidez de sua mãe; e esse abandono se repetia em todos os seus relacionamentos.

Quando trabalho com alguém ouço suas queixas principais, mas desenvolvi a capacidade de ouvir além das palavras e de ver além da aparência física.

Ana começou a contar novamente suas questões, as mesmas que ela havia relatado por e-mail. Depois de três minutos a interrompi no meio de uma frase porque percebi que ela não sentia o que estava falando e quando se expressava fechava os olhos e não se dirigia a ninguém.

De imediato detectei o seu problema: Ana não tinha nenhuma consciência de si. Percebi que o seu falar vinha todo de imagens mentais que circulavam no seu inconsciente. Crenças e experiências acumuladas do passado, mas sem nenhuma conexão com o momento presente.

Quando lhe perguntei se ela notava isso, ela respondeu que essas coisas ficavam remoendo na sua cabeça, chegando inclusive a viver momentos de desespero.

Quando observei o campo energético mental de Ana, percebi que seus pensamentos geravam em círculos. Ela estava presa num fluxo interminável de pensamentos e não conseguia sair daquele ciclone mental.

Agora eu lhe pergunto caro leitor: Como podemos resolver nossos problemas se não sabemos como olhar para nós mesmos? Por conseguinte não sabemos como olhar para os mesmos. Parece que foi criada uma cisão, uma esquizofrenia. Estamos tão fixados na mente e na matéria que não conseguimos ver mais nada nem ninguém, inclusive não conseguimos mais nos ver.

Osho enfatiza bem essa questão:

“Você está vivendo num mundo onde há seis bilhões de pessoas que nada sabem sobre si mesmas. A ignorância nunca foi tão espessa e a noite nunca foi tão longa.

Mas seja qual for o caso no mundo, cada indivíduo é capaz de sair fora dessa escuridão.

A primeira coisa que ele tem que constatar é que ele não conhece a si mesmo. E o que quer que ele conheça sobre si mesmo são somente opiniões impostas pelos outros.

Alguém lhe disse que você é muito inteligente e era tão satisfatório crer nisso que você acreditou. É necessária imensa coragem para se desassociar de tudo aquilo que você tem acreditado que você é.”

Quando relatei para Ana o que via, ela imediatamente parou e começou a perceber o que eu observava. Ela então começou a ter, talvez pela primeira vez, consciência de si.

A partir daí ficou claro para mim o diagnostico e a direção que daria à terapia nos dois dias de tratamento. O primeiro passo que Ana deveria dar era aprender a olhar na direção de si mesma.

A terapêutica em si foi simples: utilizei-me de algumas técnicas de respiração e toque; e induzi Ana na direção do seu centro. O resultado foi imediato. No primeiro dia de terapia, ela “deixou ir” toneladas de pesos e preocupações que carregava no seu “corpo-mente”. E a razão foi bem simples: ela agora se permitia olhar para si com um sentimento de aceitação.

Lembrem-se que Ana foi negada e rejeitada desde o nascimento. Esse processo de rejeição durou uma vida. Agora, pela primeira vez, ela renascia para si mesma, sendo gerada e aceitando com amor a sua criança interior que finalmente encontrara o seu único e verdadeiro lar.

Namastê!

 

 
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Comentários

Lista de comentários

José Ricardo Nacarato comentou:

15/04/2009 17:12

Boa tarde - Obrigado pelo texto -
Achei bastante interessante esse caso clínico. Sou terapeuta transpessoal iniciante e me interesso pelos casos tb p/aprendizado. Gostaria que me indicasse ou enviasse mais alguns casos clinicos e terapias utilizadas. Qto a desse caso a utililizada foi respiração holotrópica ? E o toque ? Gostaria de mais alguns detalhes à respeito. Assim sendo agradeço antecipadamente a oportunidade de estar em contato com voces. Um abraçooooo

RESPOSTA: Oi José Ricardo,
Posso lhe adiantar que a base de tudo isso chama-se 'meditação'. Essa é a única maneira que conheço de expandir essa 'presença curativa'. O conhecimento ajuda, mas além do conhecimento, além da psicologia existe algo que só se atinge através da meditação.
Tudo de bom para você!

jr.naca@gmail.com

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