Na primeira consulta faço normalmente um genograma que inclui algumas perguntas específicas para ver se trata-se de um problema sistêmico. Pergunto sobre mortes precoces na família, exclusões, separações, doenças, pessoas deficientes, migrantes, etc.
Ana era a mais nova e sabia pouco sobre sua família de origem, mas ressaltou a doença de uma irmã que com um ano e meio teve um derrame que deixou sérias sequelas. Os médicos diziam que ela não passaria de vinte anos, mas sua irmã já havia completado sessenta e dois anos de idade.
Aquele fato me tocou e marquei sua constelação. Senti naquele momento que a debilidade de sua irmã podia ter algo a ver com sua enxaqueca, mas deixei minha percepção de lado, para não influenciar o que o sistema familiar de Ana tinha para nos mostrar.
Já no grupo, pedi que Ana falasse qual era a sua questão e os fatos que descrevi acima. Não permiti que ela entrasse em detalhes e pedi, logo a seguir, que ela escolhesse dois representantes: um para ela própria e outro para representar a sua enxaqueca.
Passados alguns minutos a representante da enxaqueca começou a sentir uma sensação estranha nas suas pernas. Depois acrescentou que não conseguia sair daquele lugar. Perguntei o que estava acontecendo com a representante de Ana e ela respondeu que gostava da pessoa que representava a enxaqueca.
Perguntei neste momento a Ana quem ela achava que a enxaqueca estava representando. Ela me respondeu que parecia a sua irmã deficiente, pois ela não conseguia andar. Só andava apoiada por duas pessoas.
Minha percepção se confirmara. A enxaqueca de Ana era a forma que o inconsciente dela mesma encontrou para compensar ou expiar a doença da irmã. Ela trazia aquela doença por amor à irmã.
Acrescentei seus pais e ficou claro o quanto a irmã de Ana fora rejeitada por toda a família, principalmente pelos pais. O pai de Ana conseguiu se aproximar muito lentamente da irmã, até que a abraçou. A mãe se aproximou um pouco, mas manteve uma certa distancia da mesma. Pudemos ver que Ana fazia aquilo pela mãe.
Depois de um tempo, Ana devolveu a responsabilidade e o sentimento de culpa que tomara de seus pais. E aceitou o destino da irmã. Depois a abraçou e expressou o quanto a amava. Ana compartilhou após a constelação, a sua dificuldade de se aproximar da irmã desde a infância até os dias de hoje. Então, ela se virou e olhou para o seu futuro, seu marido e filhos.
Esse foi o passo decisivo para uma reconciliação e provavelmente para o início da cura de sua enxaqueca. Essa era a razão pela qual ela estava tão apegada à sua enxaqueca. Pois esta simbolizava a sua irmã querida, deficiente.
Este foi um bom exemplo de como uma doença pode ter uma origem sistêmica. Percebi também que a deficiência da irmã de Ana já vem de um processo sistêmico da sua família de origem – pais, avós e bisavós. Porém, neste momento esse passo foi o suficiente para que talvez o próprio sistema familiar de Ana busque um equilíbrio ainda mais profundo.