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Adotando sentimentos alheios

Case: Constelação Individual


Rose veio para uma consulta individual porque recebeu indicação do nosso trabalho com as Constelações  Sistêmicas através de um outro cliente. Ela tinha a aparência de uma pessoa forte e resoluta.

Quando lhe perguntei o que a trouxera àquela consulta, ela falou do interesse em conhecer a Constelação Familiar, mas não soube, de antemão, dizer qual o seu problema. Rose continuou falando, até o momento em que ela ressaltou que tinha sérios problemas com a própria mãe. Então, pude perceber qual era a questão primordial de Rose.
Comecei a fazer algumas perguntas em cima do que ela me relatou: mortes precoces na família, relacionamentos anteriores dos pais, noivados, etc.? Ela ressaltou que tinha conhecimento de uma ex-noiva do pai. Nesse momento me veio como um impulso lhe dizer que ela estava identificada com a ex-noiva do pai e adotara os sentimentos da mesma. Ela ficou um pouco espantada, mas acatou minha afirmação quando eu disse que iríamos ver isso na constelação.
Ela também me falou de sua avó paterna que havia falecido há pouco tempo e que ela gostava muito.
Quando trabalho com a técnica das Constelações Familiares nos atendimentos individuais tenho experimentado diversas formas de representação: com cadeiras, pés moldados em diversas cores, papéis ofício, mas o que mais gosto é de trabalhar com almofadas coloridas para a representação do sistema familiar do cliente.
Pedi então a Rose que se sentasse numa almofada que representa o observador consciente. E que ela escolhesse três almofadas para representar ela própria, sua mãe e seu pai. Fiz eu mesmo a escolha dos lugares e pedi que ela sentasse na almofada que a representava.
Quando pedi que ela visualizasse seus pais sobre as duas outras almofadas, fiquei bem impressionado com os detalhes de postura, vestimenta e expressão facial que ela me passou. Senti nesse momento que trabalhar algumas questões sistêmicas com Rose na terapia individual seria fácil e profundo.
Essencialmente ela me falou que via seu pai bem disponível para ela, mas que ele temia a presença da mãe. Esta por sua vez estava com a expressão fechada e raivosa. O que denotava, para mim, uma competição clara entre duas rivais e não o olhar entre mãe e filha.
Coloquei então a ex-noiva do pai entre o casal, um pouco mais atrás. Pedi então que Rose olhasse para ela e me dissesse como a via e como se sentia. Ela descreveu uma mulher com a cabeça baixa, triste e muito amargurada. E os pais? Perguntei. O marido olhava para a ex-noiva e a mulher parecia querer afastar-se.
Segui esse movimento e movi as almofadas de acordo com a percepção de Rose. Agora o pai olhava para a ex-noiva e a mãe olhava para ambos de longe. Sentei na almofada do pai para ter uma percepção clara do que ele sentia. O pai disse para a ex-noiva: “Eu sinto muito. Fiz você sofrer. Agora reconheço o grande amor que tive e tenho por você. Você foi a minha primeira mulher.” Em seguida apresentou a noiva para a mulher e para a filha.
A filha começara a entender e aceitar aquela dor de um amor rompido que seu pai carregara por toda a vida. Ela se sentia mais leve e pôde expressar que “se identificara com a posição da noiva e era vista como rival pela mãe, mas que agora assumia seu próprio papel de filha”.
Coloquei então mais uma almofada para representar a mãe do pai. Mais uma surpresa veio à tona: a avó fizera uma aliança com a neta (cliente) contra a mãe. A neta representando a ex-noiva não aceitava o relacionamento da mãe com o pai e a avó era fiel aos sentimentos do filho que amava outra mulher.
Coloquei então a filha para representar a mãe, sentando em sua almofada. Só então, a filha pôde sentir e reconhecer todo o sofrimento da sua mãe e suas estratégias muitas vezes agressivas de se defender. A mãe pôde então reconhecer a ex-noiva do pai como primeira mulher do mesmo e foi vista, pela primeira vez, pelo marido que agora a olhava com amor.
Pedi, finalmente, que Rose voltasse para a almofada do observador para que ela pudesse olhar toda a cena de forma consciente e desidentificada. Pedi que ela fizesse uma descrição rápida do que ela via e depois de alguns esclarecimentos, encerramos a sessão.
Nota: Uma semana após a sua consulta, Rose me relatou que ficou impressionada com os efeitos positivos que essa constelação individual causara a toda sua família.
Guilherme Ashara

Ashara

11/04/2010

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