Após a meditação que sempre faço no início, perguntei a Vicentina se ela gostaria de olhar para o sistema de inclusão e recuperação dos ex-prisioneiros numa perspectiva sistêmica. Ela gostou muito da possibilidade e começamos a constelação.
Ela sentou ao meu lado e eu lhe perguntei qual a estrutura do sistema prisional no qual ela trabalha. Ela descreveu o organograma da instituição. Perguntei a ela qual é, em sua visão, o maior problema do programa de reintegração. Ela respondeu que era a questão da inclusão do reeducando na sociedade. O processo normalmente acontece através do acolhimento do mesmo por uma empresa conveniada.
Pedi que ela fizesse a colocação (no sistema/sala) de duas pessoas: uma para representar o reeducando e outra para representar a empresa conveniada (*). Ela os colocou frente a frente.
(*) Na Constelação Organizacional colocamos pessoas para representar empresas, departamentos, unidades, ou o que seja essencial na estrutura da instituição.
Eles muito relutantemente entreolharam-se, mas logo desviaram o olhar. Pouco depois começaram a se mover lentamente, se afastando um do outro. A empresa que podíamos ver também como representante da sociedade, apontou um dedo friamente em uma determinada direção. Perguntei o que aquilo queria dizer. Ela respondeu que indicava uma direção para o reeducando.
O reeducando, por sua vez, não expressava o mínimo interesse pela empresa, nem na direção que ela apontava. Ele rejeitou a direção dada pela sociedade.
Conclusão parcial: A sociedade/empresa quer dar uma direção para o reeducando, mas a mesma reluta em recebê-lo. Ela declarou que ficava sempre desconfiada e atenta aos passos do reeducando. Este por sua vez, olha para a sociedade também com desconfiança
Questionamentos: Será que um dia poderemos aceitar de coração os ex-prisioneiros que querem se reintegrar à nossa sociedade? O que eles precisam fazer para conseguir essa reintegração?
Em seguida coloquei um representante para a família do reeducando. Ela se mostrou perdida e sem nenhuma conexão com o reeducando. Andou pela sala, olhou para o representante do sistema prisional, depois para o reeducando e falou que se sentia desconectada. Notamos que ela não tinha nenhuma iniciativa de se aproximar ou fazer algo pelo reeducando.
Coloquei, então, um representante para o sistema prisional. Ele se mostra frio e impassível, porém presente. O reeducando se mostra à vontade com o sistema prisional, mas mantém certa distância. Ele declara que se sente seguro na relação com o sistema prisional.
Nesse momento resolvi colocar no sistema as duas pessoas que trabalham na gerência do programa de recuperação. A primeira – a assistente da gerencia - ficou parada e não sabia como agir. Perguntei o que sentia e ela respondeu que não sentia nada.
Coloquei então a gerente que depois de alguns segundos olhando para o reeducando resolveu fazer o discurso que a meu ver é praxe no sistema de recuperação. Ela disse: “Nos estamos aqui para ajudá-lo. Queremos o melhor para você. Você precisa confiar em nós. Etc, etc.
O reeducando se comportou de forma ainda mais repulsiva. Ele não queria ouvir nada daquilo. Ele afastou-se bruscamente e se distanciou de todos.
Questionamentos: Todas as imagens anteriores são imagens do problema. Nada facilitou a inclusão e a reintegração do reeducando. Aqui fazemos algumas indagações: “ O que pode ajudar? O que pode fazer com que esse ser humano seja aceito e se sinta aceito pela sociedade? Será que a sociedade pode receber de volta esta pessoa que por alguma razão agiu contra as suas normas?
Decidimos experimentar alguns passos para a solução. Pedi que a família reconhecesse e acolhesse o reeducando, dizendo: “Você é parte de nós, reconhecemos você como parte da nossa família. Assumimos a nossa parte da responsabilidade por tudo que aconteceu com você!”
Perguntado, o reeducando declarou que se sentia melhor com aquele reconhecimento. Pedi que a sociedade/empresa fizesse o mesmo, reconhecendo que ele faz parte da sociedade e assumindo a sua parte da responsabilidade pelos desequilíbrios da mesma.
Em outro momento anterior pedi que a sociedade olhasse para o reeducando com o coração. O último se sentiu visto e agora podia também conectar com a sociedade/empresa e se sentiu acolhido.
Agora o reeducando podia olhar para a sociedade e para a família. Pedi, então que ele experimentasse alguns passos na direção dos mesmos. Ele o fez relutantemente e quando chegou a uns dois metros de distância e parou. Perguntado como se sentia, o reeducando declarou se sentir melhor e mais confiante.
Os outros se mostravam mais relaxados e mais presentes.
Concluímos aqui a constelação.
Conclusão: Enquanto o reeducando não for visto pela família e pela sociedade com aceitação e confiança, ele também não vai sentir confiança para se reintegrar. A sociedade e a família, na visão do reeducando, sempre vão ser os coresponsáveis pela sua exclusão da sociedade.
O primeiro passo foi dado quando a família e a sociedade reconheceram a parte da responsabilidade que lhes compete. Outro passo essencial seria, em outro momento, fazer a Constelação Familiar do próprio reeducando para que pudessemos identificar e curar prováveis emaranhamentos sistêmicos dentro da sua própria família.
Bert Hellinger em seu livro ‘Um Lugar para os Excluídos’, da Editora Atman, nos mostra vários exemplos de casos envolvendo perpetradores e suas vítimas. Sua compreensão é que o reequilíbrio e a paz só vão acontecer quando, de princípio, acolhemos em nosso coração todos os excluídos, depois, reconhecemos a nossa parte do problema.
E ele continua explicando: “ [...] Sempre que uma pessoa fala de um perpetrador em sua família diz: ‘Ele destruiu tantas coisas...’, eu imediatamente dou a ele um lugar no meu coração. Os separados são imediatamente unidos em minha alma e, justamente por isso, porque eu incluo os difamados antes de começar o trabalho. Isso também vale quando os pais são rejeitados. Nem é preciso procurar por assassinos – todos os rejeitados têm imediatamente um lugar em meu coração. Com isso, coloco-me sistemicamente numa posição em que posso realmente ajudar a todos”.
Por fim podemos concluir que a verdadeira inclusão, a verdadeira liberdade dos excluídos só vai acontecer quando pudermos reconhecer a nossa parte no desequilíbrio social e pudermos colocá-los em nosso coração.
Namastê!
Guilherme Ashara - 'Counselor' com especialização em Constelações Sistêmicas e Psicologia Transpessoal. Atendimentos pelos fones: 85-8867.8511 / 9918.5578.