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O Papel de Homens e Mulheres na Família Atual

Relacionamentos de Casais

Guilherme Ashara
Qual é o papel do homem na família atual? Qual é o meu papel como homem na minha família? Há muito venho olhando para esta questão, não somente porque é um problema da nossa sociedade, mas porque é um dos problemas essenciais das relações e da família.

Muitas clientes minhas chegam com questões que na essência se resume em “meu marido está perdido e confuso e eu não sei o que fazer mais. Estou pensando em me separar”. Outras procuram um novo relacionamento, mas tem muita dificuldade em encontrar. E a maioria dos homens está tão desnorteada que não consegue ver nenhuma solução e continuam negando a terapia como uma ferramenta que possa ajudá-los a resolver suas questões.
Para tentar clarear esse complexo problema, vou começar com minha própria experiência de vida. Eu tinha vinte e um anos quando passei em um ótimo concurso para um emprego federal. De um salário de bolsa de estudos, passei a ganhar dez ou vinte vezes mais. Foi aí que fui requisitado sutilmente a assumir minha família de origem. Neguei esse papel veementemente. E logo a seguir sai de casa para morar com amigos. Hoje compreendo que neguei intuitivamente um papel que não era meu e sim do meu pai.
Voltando um pouco no tempo, vejo o meu pai que era feliz trabalhando para criar dez filhos. O papel que ele exercia era quase que exclusivamente de procriador, provedor e protetor. Na hierarquia familiar ele era, sem sombra de dúvidas, o número um. Ele era respeitado e temido como o cabeça da família. Seu lugar na mesa era sagrado: a cabeceira principal. Minha mãe era a número dois, pois paria os filhos e ajudava na criação. Ela sentava no lado esquerdo da mesa ao lado do meu pai.
Toda essa introdução foi para começarmos a entender que antes das mulheres alcançarem a sua igualdade social e financeira com relação aos homens, os papéis estavam perfeitamente definidos e isso gerava uma certa tranquilidade no casal e por conseguinte nos filhos.
Mas a sociedade e a família não podem parar, precisam crescer. E esse crescimento admite necessariamente desequilíbrios. A família se desestruturou, se rompeu, faliu. E agora, pede socorro. O que virá após essa desestruturação? O que acontecerá com a relação entre homens e mulheres a partir de então?
Jacob Schneider em seu livro ‘A Prática das Constelações Familiares’ comenta: “Atualmente muitas condições externas mudaram para as famílias. Com isso o homem já não parece tão ‘necessário’ e as mulheres têm mais peso e influência nas famílias, pois ganham o próprio sustento e muitas vezes têm apenas um filho ou mesmo nenhum. Isso trouxe problemas para a relação entre o homem e a mulher. A despeito das aparências, essa relação é afetada pela diminuição da importância dos homens, que já não têm condições ou vontade de prover a família e, por conseguinte, de ‘dirigi-la’. Pelo que pude perceber a partir de minhas observações e experiências com constelações em muitos países, a impotência e a inutilidade de muitos homens, que indiretamente afeta também as mulheres, são um fenômeno generalizado. Isso se mostra mais agudamente nos lugares onde a realização social e cultural dos homens entrou em colapso – por exemplo, entre os índios e os aborígenes – ou já não é respeitada pelas mulheres. Em decorrência das guerras, da destruição ambiental ou dos ‘melindres’ dos homens, a realização masculina já não parece servir à família ou às gerações futuras ou não é mais necessária como realização específica (como acontece em nossas nações pretensamente desenvolvidas). Justamente nos lugares em que os homens se comportam tiranicamente, oprimindo as mulheres e as crianças, revela-se frequentemente, por trás dessa atitude, sua impotência, uma vontade de autoafirmação ou uma tentativa distorcida de compensação diante do ‘excesso’ de valor da mulher.”
De fato, ambos, o homem e a mulher, estão pedindo socorro, querendo uma solução. Pois a mulher, por seu lado, está também ‘perdida’ procurando pelo ‘novo’ homem ideal e, por outro lado, o homem ainda não encontrou o seu papel nesta sociedade que prega a igualdade entre os sexos. O que se pode fazer a partir desse quadro ‘negro’ de acontecimentos?
As dicas que darei agora são em parte minha experiência pessoal de vida como homem, marido e pai e/ou conhecimentos e percepções que me chegam com o trabalho com as constelações familiares ou com a prática de técnicas de meditação.
Participar de grupos de autoconhecimento é um ótimo começo. Grupos de homens ou mistos onde se possam abrir as dificuldades de ‘ser homem’, de ser marido e de ser pai podem ajudar nesse processo. O simples fato de expor em um grupo que você confia e que guarde confidencialidade as suas dificuldades é um grande passo para encontrar uma solução.
Através do diálogo o casal poderá rever seus papéis, buscando o papel mais adequado para cada um naquele momento. É importante entender que essas soluções são individuais. E cada homem ou cada casal vai buscar na sua vida diária as soluções que lhes forem adequadas.
Um outro passo essencial é a busca da compreensão das Ordens do Amor de Bert Hellinger, bem como a participação em grupos de constelação familiar. Fazer a sua constelação significa que você poderá olhar para todo o seu sistema familiar, seus emaranhamentos, seus desequilíbrios, suas desordens no âmbito da família atual, bem como da família de origem. Ter essa compreensão ajuda você a encontrar o seu lugar específico em sua família e se fortalecer dentro dele.
Jacob nos dá um toque terapêutico: “Quando se aceita conscientemente e com amor, aquilo que permanece em desequilíbrio, torna-se possível adotar soluções novas, se bem que não arbitrárias, que façam progredir no sentido das ordens da alma (amor). Ao falar de ordens, o terapeuta o faz no sentido de uma confrontação racional com forças que, de um modo ou de outro, atuam na alma e também se manifestam nas constelações. Ele deve evitar impor ou proclamar algo no sentido de uma moral ou de uma norma ou mesmo julgar processos sociais. Também não deve interferir no jogo diário das forças no casal, pois compete aos parceiros com sua própria compreensão, procurar e pôr em prática sua solução particular, bem como carregar os seus efeitos. O terapeuta limita-se a mostrar, através da constelação ou de sua experiência, o que atua e com que efeitos na relação do casal.”
A percepção dos papéis leva a um terceiro passo: Um passo para além dos papéis. Perceber o ser, a essência que estão além dos papéis ou das máscaras é o subproduto da prática da meditação. A meditação nos leva a tocar espaços além da personalidade, além dos papéis. Somente nesse estágio estaremos livres de papéis que nos aprisionam, nos limitam, nos comparam. E agora sim, estaremos prontos para viver um verdadeiro relacionamento, onde poderemos ‘brincar’ com os papéis, sem que eles se tornem uma carga, mas que sejam simplesmente parte de uma brincadeira saudável, sincera e natural dentro de uma relação.

Ashara

23/09/2010

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